quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Reflexões de um Protestante sobre Maria



Por Rev. Carlos Eduardo Calvani[1]



Fui criado em uma Igreja Protestante tradicional. Como todos sabem, nessas igrejas a figura de Maria é, no mínimo, ignorada. Em grupos evangélicos pentecostais mais fanáticos, chega-se até ao ponto de ser mesmo hostilizada. Desse modo, a devoção a Maria nunca fez parte de minha espiritualidade. Porém, o trabalho pastoral nos coloca diante de pessoas que vivem essa fé de forma bastante sincera e isso se intensifica nas proximidades do dia 12 de outubro[2] com as romarias a Aparecida ou a outros santuários marianos. Isso sempre me chamou a atenção, pois o respeito à fé das pessoas é um princípio que está nas origens do cristianismo, embora não seja muito praticado pelos que seguem o Cristo. Agora, quando nos aproximamos de mais um feriado da Padroeira do Brasil, resolvi pensar um pouco mais sobre Maria até mesmo para tentar compreender o fascínio que sua figura exerce no mundo católico. Talvez, como protestante, o que eu possa oferecer é apenas o mesmo que Renato Teixeira na música Romaria: “como eu não sei rezar, só queria mostrar meu olhar, meu olhar, meu olhar...”O que significa parar para pensar em Maria nesses dias?


Geralmente a notícia de uma gravidez é motivo de alegria para muitas mulheres. Outras, porém, ao saber que estão grávidas reagem primeiramente com preocupação e medo: medo da gestação, do parto e das responsabilidades para com uma nova vida; outras ainda reagem em desespero porque são jovens demais ou por não serem casadas ou até mesmo porque engravidaram em circunstâncias inesperadas e sabem que terão que criar seu filho sozinha. Certamente o anúncio da gravidez de Maria a pegou de surpresa, pois se constituía em um grande problema: ela ainda não era casada e estava grávida. Se ainda hoje o anúncio da gravidez de uma jovem solteira é assunto de comentários maldosos, o que dirá naquela época... Coloquemo-nos em seu lugar e imaginemos o que não passou por sua cabeça: ouvir comentários maledicentes e ser humilhada... o casamento marcado... como explicar ao noivo o que aconteceu? Será que ele entenderia ou a rejeitaria?

O tempo da gravidez também foi turbulento. Teve que fazer uma longa viagem e teve seu filho em condições precárias, ao que tudo indica sem a ajuda de familiares (exceto o marido) que pudessem apoiá-la naquele momento. Após o parto, outra longa viagem. Conforme o evangelho de Mateus, toda família teve que se exilar no Egito para evitar que seu bebê fosse morto.O tempo passa, os meses e lá está ela vivendo a maternidade: a criança acorda aos gritos na madrugada querendo mamar, começa a andar, cai, se machuca e quando começa a descobrir o mundo, inevitalmente, como toda criança, quebra coisas em casa, e ela está lá...Papinha, comidinha, banho, lavar as fraldas sujas, limpar o bumbum, cortar as unhas, dar aquele beijinho de mãe quando a criança esbarra em algo e se machuca, tantas tarefas... e ela está lá...De repente, a criança começa a crescer... e como acontece com toda criança normal, faz suas artes... perde-se dos pais durante uma visita ao Templo (quantos pais e mães já não viveram isso quando em um passeio pelo shopping, mercado ou uma grande loja, o filho se perde...) e quando é encontrado já tem a ousadia de responder de modo consciente e até meio rebelde aos pais... mas ela está lá...


De repente, ele é um homem... crescido, com barba, pensa por si só e já não aceita opiniões que contradigam o que ele quer fazer... já é dono do seu próprio nariz... chega até a repreendê-la publicamente quando ela resolve interferir... mas ela está lá, acompanhando o ministério do filho, às vezes surpresa, outras vezes orgulhosa dele, outras vezes certamente preocupada com seu futuro... mas ela está lá...Até que um dia, seu filho é preso. Quanta dor para uma mãe saber que o filho está preso... aquela criança frágil, cuidada com tanto zelo, que várias vezes correu aos seus braços procurando consolo após uma queda, após um desentendimento com um amiguinho ou após um pesadelo noturno, agora precisava novamente dela e, embora ela estivesse por perto, nada podia fazer...Na condição de mulher, ela não podia entrar no Sinédrio onde seu filho estava sendo julgado e, de repente, vem a sentença: seu filho seria crucificado.


Imaginemos a dor dessa mãe ao ver seu filho naquela situação. Creio que naquela hora Maria sofreu como mãe, sem pensar em qualquer significado teológico que justificasse tamanha barbaridade e sofrimento. Não era o “filho de Deus” que estava sofrendo ali. Era o seu bebê, o seu filhinho que estava passando por humilhações públicas, sendo xingado e espancado... não era o “Verbo encarnado”, mas seu bebê que sangrava no meio da rua, e ela nada podia fazer... Não era “o Messias prometido, o Ungido, o Cristo” que estava pendurado no madeiro, era o seu bebê cuidado com tanto carinho que agora assumia o lugar de maldito perante todos e perante Deus... era o seu bebê que exclamava na cruz “Tenho sede...” e ela não podia lhe levar água; era o seu bebê que dava altos gritos de dor e sofrimento, e ela assistia a tudo com imensa dor e perplexidade... mas estava ali... era o seu bebê que, em total humilhação tem suas vestes rasgadas e é pendurado nu para agonizar até a morte, e ela ali, ao lado dele...Ah, Maria... o que se passou em sua mente aquela hora? Fui escolhida para isso? Maria foi escolhida para ser mãe do Redentor, mas não foi poupada de ser humana e sofrer como tantas mães-Marias da história. É juntamente a sua humanidade e a sua maternidade que a tornam santa e bem-aventurada entre as mulheres. É difícil acreditar que Maria assistiu à crucificação de seu filho como se fosse um momento necessário no plano divino de salvação. Não! Quem estava ali não era “o Cristo”, era o seu bebê, o seu filhinho...Não é difícil compreender porque a devoção a Maria ganhou peso na história do cristianismo. Não é difícil compreender porque todos os anos o santuário de Aparecida ou outros santuários marianos espalhados pelo mundo recebem tantos romeiros... porque nas carências e necessidades da espiritualidade popular, o santuário é a casa da mãe, da mãe que sofre por causa das opções de vida que o filho ou a filha fazem, mas que está ali, como diz a música de Chico César, Mama África: “filhinho tem que entender que Mama África vai e vem, mas não se afasta de você”.Após o feriado do dia 12 o comércio começa a se preparar para o Natal e as igrejas começam a recontar a história da salvação. Maria está grávida de novo... nascerá seu filho... e durante o ano litúrgico acompanharemos seu ministério até a semana da sua morte, e ela estará ali também, como sempre esteve, no coração de tantos sofredores que na hora do sofrimento a invocam: “Ave Maria, cheia de graça... rogai por nós, pecadores, agora e na hora de nossa morte”.Não é difícil entender porque tantos cristãos e cristãs, mesmo protestantes e evangélicos que nunca foram estimulados a refletir mais sobre Maria, possam agora se sentir mais perto de Deus e reconhecer: “Bem-aventurada és tu entre as mulheres”.


[1] Reverendo Anglicano e Coordenador do CEA - Centro de Estudos Anglicanos

[2] O texto foi produzido antes da referida data

(publicado anteriormente em outubro de 2007).

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Honra o médico!

Honra ao médico por seus serviços, pois também ele o Senhor criou.
Pois é do Altíssimo que vem a cura, como presente que se recebe do rei.

A ciência do médico o faz trazer a fronte erguida, ele é admirado pelos grandes.

Da terra, o Senhor criou os remédios, o homem sensato não o despreza.
(Eclesiástico 38,1-4).

A verdade expressa nesse versículo é muito simples: a medicina é um dom! 

Este livro, o “Eclesiástico” faz parte daquele conjunto de escritos conhecidos como “Apócrifos”, pelos evangélicos, e “Deuterocanônicos”, pelos católicos. Pode-se dizer que para os cristãos é antiga a dúvida se tais livros deveriam ou não ser considerados inspirados, sendo que, São Jerônimo opinara que não deveriam ter o mesmo status que os demais livros; opinião esta que parece não ter sido acatada pelo catolicismo romano. Séculos depois, os Reformadores vieram a considerá-los literatura muito edificante, mas não inspirada.

Fato é que, tanto o posicionamento dos católicos, quanto dos antigos reformadores, foi ignorado pelos novos evangélicos. Talvez porque a América Latina ter sido fruto basicamente de missões norte-americanas, as versões evangélicas das Escrituras sequer contém os mencionados livros, sendo negado, portanto, a grande parcela dos cristãos a oportunidade de ler esta literatura que foi chamada por Lutero, Calvino e companhia, de literatura edificante. Ou seja, acabou sendo negado aos evangélicos a oportunidade para que tirassem suas próprias conclusões.

Durante muitos anos isto não fez muita diferença, visto que, protestantes históricos, geralmente mais cultos, supriram a ausência de tais livros com seu próprio bom senso e inteligência, além de, certamente, os terem lido em seus estudos privados.

O problema é que surgiu no meio evangélico alguns grupos pentecostais radicais que passaram a ensinar coisas, no mínimo estarrecedoras acerca de determinados assuntos, e, este é o motivo do versículo citado no início deste artigo.

Alguns começaram a ensinar que não se deveria procurar o médico, pois isto seria falta de fé; e que se deveriam fazer abstenções inclusive a remédios, pois isto demonstraria falta de confiança na capacidade de Deus em curá-las. Obviamente, se o fiel morresse ou padecesse, os propugnadores de tal teologia diziam que, foi o coitado que não teve fé. Pura picaretagem. Se pesquisarmos, veremos que não poucas pessoas perderam suas vidas, confiando nestas falsas promessas. Penso que, certamente, é o desespero e a desinformação que leva muitas pessoas a aceitem este tipo de engodo.

Interessante e trágico é, que há mais de dois mil anos, um sábio judeu disse que o médico era uma benção, que a medicina é dom de Deus, e talvez a mera leitura deste versículo e o seu assentimento teria evitado muitas mortes. Talvez, muitos dos defensores desta teologia teriam ficado constrangidos em criar uma doutrina destas se tal texto estivesse em nossas Bíblias, mesmo com um status inferior aos demais livros.

De minha parte, considero os “apócrifos” e “deuterocanônicos” como leitura bastante edificante, e não preciso considerá-los inspirados para tanto. Outras partes, nem tanto. De qualquer modo, penso que todos deveriam ler tais livros e tirarem suas próprias conclusões.

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sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Unidos a Cristo

Aquele que se une a Deus é uma só alma com Ele. Não há alvo mais sublime a que um ser humano possa almejar. Ser um com Cristo, ser um com Deus. Gozar de uma intimidade tal que, aos leves toques do sopro divino cada qual possa guiar os seus próprios passos em sua caminhada. Quando o profeta proclamou que ninguém mais precisaria ensinar ao seu próximo (Jeremias), penso que é nesta intimidade em que estava pensando. Disse o filósofo certa vez que, ter o coração puro seria querer Ele, somente Ele (Kierkegaard). Talvez não haja realmente melhor definição para pureza de coração do que esta. Possuí-lo e ser inteiramente por Ele possuído. Ter o caráter e as mais profundas intenções transformadas pela influência divina.

Penso que é por isso, e tão somente por causa disso, tendo em vista a sublimidade de tal relação que somos convidados a deixar os caminhos de morte, de prazer desenfreado, de luxúria, etc, pois tais coisas maculam tal experiência. Quem não teve experiência, a sublime experiência de se ter tido, apenas por um instante, o sentimento da presença divina, não entenderá as mais severas, por assim dizer, exigências do evangelho. Há muitas comunhões no mundo, muitos convites, muitos desejos. Como poderá o jovem manter puro o seu caminho, perguntou o salmista. É observando-o segundo sua Palavra, ; mas há de ser uma observação viva, espiritual, que o remeta à realidade de Deus.

Quem assim agir, não terá mais necessidade de julgar, se medir através do outro, se impor, pois já alcançou tudo, conseguiu o seu tesouro, a paz que excede todo o entendimento, a alegria que não é como o mundo a dá. Não há mais espaço para o ódio. E, certamente, tal influência, tais rios de água viva fluirão de si para saciar a vida de outros.

Penso que não haja melhor alvo do que este na vida. Conhecer e prosseguir a conhecer ao nosso Deus. Entrar na experiência do Cristo e levar outros a ter tal experiência. Eis aí um grande desafio, e algo que certamente vale a pensa concentrar todos os nossos esforços, todo o nosso ser.

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quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Sobre sofrimento

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“...Abba! Tudo é possível para ti: afasta de mim este cálice; porém, não o que eu quero, mas o que tu queres...” (Marcos 14,36)

Penso que não há dúvidas nos cristãos acerca dos sofrimentos reais de Cristo, não somente na cruz, mas também em toda a sua vida; a não ser que sejamos gnósticos que entendam que o Filho de Deus não havia se encarnado, mas fosse somente um tipo de "holograma".


Fato é que, segundo as Escrituras, o Verbo se encarnou (João 1), e os sofrimentos de Cristo foram reais. Penso que, um dos motivos dele suportar todo aquele sofrimento, sem dúvida alguma foi saber que ele não seria um fim em si mesmo, mas sim um passo para algo maior, no caso, a salvação do seu povo. Portanto, foi um sofrimento necessário, não obstante, ele nunca fosse obrigado a isso.

Entretanto, meditar nestes sofrimentos de Cristo parece estar fora de moda ultimamente, em meio a uma religiosidade onde a palavra de ordem é triunfar e ser feliz. Não que eu seja contra o triunfo ou a felicidade, mas fico a pensar se não estamos “queimando” etapa após etapa para que, em busca de uma felicidade imediata (ou ausência de sofrimento imediato) acabemos deixando de alcançar uma felicidade maior.

Talvez seja preciso sofrer para se tentar preservar algo maior, principalmente no campo dos relacionamentos. Quantas amizades deixam de se concretizar ou terminam, porque um dos lados perde a paciência; quantos casamentos acabam porque um dos cônjuges “não aguenta mais”, quantas vezes pedimos demissão de algum emprego porque “não suportamos o tranco”, quantas vezes grupos cristãos se dividem, porque não aguentam abrir mão de algum ponto de vista em prol da unidade? Claro que em todos os exemplos citados, pode haver exceções, mas ao olhar ao nosso redor, dá a impressão de que estão se tornando regra.


Portanto, façamos dos sofrimentos de Cristo motivo para a meditação em nossas vidas, a fim de que possamos entender se algum sacrifício de nós também é requerido em prol de algo muito maior, porque a nossa “curta e momentânea tribulação poderá produzir em nós um peso de glória” indescritível.

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Sofrer sem murmurar

Segundo o bem aventurado Apóstolo Paulo, “somos como ovelhas entregues ao matadouro, todos os dias”. Jesus disse ao Pai “seja feita a sua vontade e não a minha”. O escritor aos Hebreus ensinou que "Jesus aprendeu a obediência por meio daquilo que sofreu". Além de tudo, temos a experiência do antigo testamento, quando o povo no deserto murmurou, suscitando o desagravo divino.


Certamente, é uma lição difícil, esta, a de sofrer sem murmurar, sofrer sem reclamar, principalmente por observarmos o evangelho, mas certamente, isto faz parte da imitação ao nosso Mestre, que foi entregue como uma ovelha muda ao matadouro.

Costumo escrever sobre sofrimento, pois este é parte intrínseca da existência humana. Sofremos desde o momento que nascemos até o momento em que partimos deste mundo. Sofremos em nossas relações pessoais, em nossos conflitos existências, em todas as fases de nossas vidas.

A diferença do cristão não está na ausência de tais sofrimentos, mas sim talvez na forma como os encara; e todo o ser humano que tente praticar a justiça evangélica, mesmo não sendo cristão, segundo as Escrituras, padecerá tribulação, de modo que é possível pensar que há um “plus” na vida dos verdadeiros discípulos em relação aos sofrimentos, que vai um pouco além da normalidade da existência.

Há tantas vertentes na questão do sofrimento, que é impossível enumerar todas. Tudo, no contexto da vida humana influenciará em relação a isso, desde localidade e época em que nasceu, e até mesmo herança genética. Uns sofrem mais, outros, menos, mas é impossível medir a dor da alma. É legítimo combater o sofrimento, tanto o nosso próprio como quanto os dos demais seres humanos; o que não dá para fazer, é negá-lo, pois assim fazendo, não há a cura, não há consolo.

O fato é que nós, que estamos acostumados a uma época em que o evangelho parece ter sido relativamente barateado, e as multidões colocadas mais como consumidoras do que como servidoras do evangelho, talvez precisemos meditar um pouco mais acerca do sofrimento, e se não é o caso, aprendermos a sofrer em silêncio diante dos homens, e elevarmos os motivos de nossa angústia somente a Deus. Fico a pensar se com nossas murmurações não afastamos a consolação divina (acho que foi Tomás de Kempis que sustentava tal opinião, embora eu entenda que o Senhor pode também nos consolar por intermédio da vida de um irmão). Será que não estamos buscando o alívio de nossos sofrimentos na conversa frívola, no consumo desenfreado, nos prazeres fáceis? Talvez tenha chegado o momento de aprender a se recolher só diante de Deus, e "jogar sobre ele as nossas aflições", crendo, conforme disse o bem aventurado apóstolo, que “Ele tem cuidado de nós”.


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quarta-feira, 13 de setembro de 2017

OS PADRES DO DESERTO (séculos III a VI)


Quem eram: homens e mulheres em busca de uma espiritualidade autêntica, do encontro com Deus e conhecimento de si próprios. Fortemente inspirados pelas ideias de martírio e de celibato (Mt 19.3-12; 1 Co 7), mas o movimento não era composto somente por celibatários. Famílias inteiras iam para o deserto, e houve comunidades de homens e mulheres que inspiraram o monasticismo posterior. Os eremitas eram os que vivam mais isolados. Muitos destes padres e madres se tornavam conselheiros espirituais, praticando a caridade e vivendo de pequenos trabalhos manuais. Obra inspirativa: “Vida de Santo Antão”, de Atanásio de Alexandria.

Deserto: lugar de provação, amoldamento de caráter e análise do coração (Dt 8.2). Lugar de experiência com Deus e transformação (Jacó). Dependência de Deus (Elias). Habitação e anúncio profético (João Batista). Luta contra os demônios e busca do Pai (Jesus). Discipulado (Paulo).

Temas da espiritualidade do deserto:

Fuge (foge): em sentido negativo, fugir, deixar a cidade, deixar as futilidades, deixar as paixões, deixar aquilo que afasta de Deus, fugir do que arrasta para o pecado (pecado é hamartia – errar o alvo, o esquecimento do Ser; ao contrário de anamnesis – “fazei anaminesis de mim”). “O mundo é o mundo do esquecimento” (Marcos, o Eremita). O mundo é de morte, pois “jaz no maligno”.  Em sentido positivo, fuga é fugir para Deus e para tudo o que leva a Ele, “fugir para o Alguém, fugir para o Único, fugir unificado para o único Um”. Sair do mundo e o mundo sair de dentro de ti. Sentido psicológico e sociológico: fuga como necessidade vital do ser humano. Fuga da opressão, das relações senhor/escravo (fuga do Egito), das competições hierárquicas, da necessidade de “status”. Fugir para evitar os males psicossomáticos. “Fugir para fora do mundo para Alguém que não é deste mundo, para se perceber que o mundo não tem em si seu sentido e fim” (Arsênio). Fuga implica em movimento, saída. Figuras bíblicas: Abraão, Jacó, os israelitas, Elias, João Batista, Jesus, Paulo. Jesus “fugiu dos céus, dos seus pais, dos seus perseguidores, dos seus aduladores, do mundo e dos seus discípulos”.

Tace (cala-te): “quem domina a língua domina o corpo” (Tiago). “De toda palavra ociosa que o homem disser dela dará conta no dia do juízo”, “a boca fala do que está cheio o coração”, “pela tua palavra será justificado ou condenado”, “o que sai da boca é que torna alguém impuro” (Jesus). “Não é preciso fazer silêncio, pois ele já existe”. “Derrubar uma árvore faz mais barulho do que o crescimento de toda uma floresta”. Calar-se para ouvir a Deus. Calar-se para ser capaz de Deus. Calar porque Deus habita no silêncio. “O Senhor está no seu Santo Templo, cale-se diante d’Ele toda terra” (Hc 2.20). “O julgar pode ser uma inconsciente autoprojeção sobre o outro”. “Quando ninguém lhe parece impuro, então te tornaste puro” (Isaac o Sírio). “A oração surge do silêncio e ao silêncio retorna”. “Tua palavra surge do silêncio e ao silêncio retornará”. “Que teu verbo venha de Deus e retorne para Deus”. Os perigos do muito falar (Anselm Grun): a curiosidade, pois leva a falar demais dos outros. “Um monge nunca deve andar atrás de saber como é este ou aquele; tais perguntas apenas o afastam da oração e levam às calúnias e às conversas vãs; por isso, o melhor é calar-se inteiramente” (Apo 996). O julgamento. “Quando dois irmãos marcavam para conversar, Satanás enviava para aquele local o demônio da maledicência”. A vaidade. “A tagarelice é o trono da vanglória, onde ela senta-se em juízo sobre si mesma e toca o trombone sobre si para o mundo inteiro” (São João Clímaco). A dispersão interior. “Assim como as portas do banho quando ficam sempre abertas rapidamente deixam o calor escoar-se de dentro para fora, assim também quem muito fala, mesmo que fale coisas boas, deixa sua lembrança fugir pelo portão da sua voz” (Diádoco). “Assim como para comer carne é preciso matar, é impossível falar muito, mesmo sobre coisas boas sem tocar as ruins” (S. Bento). “Às vezes, deformamos uma coisa ao falar muito a respeito dela” (H. Nouwen).  Cuidado com o silêncio doentio: “o que torna os mortos tão pesados é o peso das palavras que não souberam dizer”. Pela terapia, “faça sair o veneno da goela da serpente”. “Que teu silêncio não seja irresponsável”.

Quiesce (tranquiliza-te): repouso, descanso, paz, hesychia, shalom. É a paz interior decorrente do casamento da alma com Deus. “Encontra a paz interior e uma multidão será salva ao teu lado” (Serafim). “Um ser de paz comunica sua calma ao mundo inteiro”.  “O verdadeiro homem espiritual não é o homem poderoso, e sim o homem manso”. “Deus busca entre os homens um lugar para o seu repouso”. “Deus não pode repousar em um coração agitado”. “E vindo, ele evangelizou a paz, a vós que estáveis longe e aos que estavam perto” (Ef 2.17). “Ora, o fruto da justiça semeia-se na paz, para os que exercitam a paz” (Tg 3.18). Jesus é o nosso Shabbat, daí, fugimos para estar com Ele e n’Ele. “Todo trabalho deve conduzir ao descanso” (Leloup). “Não trabalhar um dia é tão mandamento quanto não roubar ou adulterar”. “Fiz sossegar a minha alma” (Sl 131.1-2). “Não andeis preocupados por coisa alguma” (Jesus). “Colocai toda sua ansiedade sobre Deus” (Paulo). “A principal obra da hesychia (sossego da alma) é a ameriminia (despreocupação) perfeita de todas as coisas, razoáveis ou não” (João Clímaco). “Quem abre a porta às preocupações razoáveis, abre também às que não são”. A quietude interior é um estado de alma que não sofre nenhuma partilha: ou é total, ou não existe. “Um pequeno cisco atrapalha a visão, uma pequena preocupação faz a alma perder a paz”. Eliminar a preocupação passa pelo contentamento: “deseja tudo o que tens e tens tudo o que desejas”. “Não está em paz quem se compara com os outros”. “Onde há inveja, não há paz”. “Só os humildes vivem em paz”. “Só vive em paz quem se coloca como último de todos e servo dos demais”. Acima de tudo, a paz não é algo que se conquista, mas um dom recebido: Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo a dá. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize (Jo 14.27).

Tratamento (terapeia) das paixões (pathos). A contemplação de si faz com que os padres dos desertos fossem os primeiros psicólogos. “Vou para o deserto para poupar o mundo de mim mesmo”. O ser humano em estado patológico identificado nos logismoi (pensamentos): gastrimargia (gula); philarguia (avareza); porneia (obsessão sexual); orgè (cólera, patologia do irascível); lupè (tristeza, melancolia, sentir-se um lixo); acedia (perda de entusiasmo pela vida espiritual, depressão, impulso de morte, tudo foi inútil, demônio do meio dia); kenodoxia (inflação do ego, vanglória); uperèphania (orgulho). O objetivo é alcançar um estado de “apathea” (ausência de paixões = patologias). Evágrio Pôntico escreveu sobre esse tema no Oriente, e foi trazido ao Ocidente por João Cassiano, em que a “apathea” foi traduzida por “puritas cordis” (pureza de coração).

Ascética: exercício, batalha, luta, renúncia, “usufruir o máximo do mínimo” (palavras, natureza, alimentação, bens, etc). “A verdadeira ascese consiste em saborear” (Anselm Grün). “Portanto, para alcançar a pureza de coração e o amor, é necessário que façamos tudo quanto realizamos por meio das obras ascéticas; pois elas são os instrumentos que podem libertar nosso coração de todas as paixões prejudiciais que nos atrapalham no progresso para a plenitude do amor. Assim, nós praticamos o jejum, as vigílias noturnas, o recolhimento, a meditação nas Sagradas Escrituras, etc., por almejarmos a pureza de coração, que consiste no amor. Assim, o que quer que façamos, devemos fazê-lo a fim de tornar-nos verdadeiramente amantes. É por isso que o amor é normativo em tudo. Atingi-lo é a finalidade de nosso agir...” (João Cassiano) “Se a humanidade não assumir uma postura ascética diante da existência, corre o risco de destruir o mundo” (dimensão ecológica, L. Boff). Mas também há a advertência contra a ascese exagerada, o que não era incomum: “Há alguns que desgastaram seus corpos por meio da penitência. Mas por ter-lhes faltado o discernimento, acabaram se afastando de Deus” (Antão, Apot 8).

Caridade: “ter o mínimo para que possa dividir o máximo com o meu próximo”.

Theosis: deificação; divinização do ser; Cristo vivendo em si (Gl 2.20); divinos por coparticipação (2 Pe 1.4); tornar-se semelhante a Ele (I Jo 3.2), é o objetivo de Deus na vida dos eleitos (Rm 8.29). Salvação é participação na natureza divina. “Deus se fez homem para que o homem pudesse se tornar deus” (Atanásio de Alexandria). Deus realiza estes atos na vida dos fiéis, na concepção oriental, por intermédio principalmente dos sacramentos, que em princípio, não tinham um número limitado, pois em Cristo, toda a realidade é sacramental. Sacramento é o meio natural pelo qual a graça sobrenatural de Deus se revela, ou o meio visível pelo qual a graça invisível se manifesta. Exemplos de sacramentos: a natureza (Sl 19.1); a eucaristia (1 Co 10.16); a Palavra (Ef 5.15); a oração (Tiago 5.14); a congregação (Mt 18.20).

Bibliografia

BARBOSA, Ricardo.  O caminho do coração: ensaios sobre a Trindade e a Espiritualidade Cristã. Curitiba: Ed. Encontro, 1996.
CAVALCANTE, Ronaldo.  Espiritualidade Cristã na História.  São Paulo: Paulinas, 2007.
GRÜN, Anselm. As exigências do silêncio.  Petrópolis: Vozes, 2004.
_____________. Os padres do deserto. Temas e textos.  Petrópolis: Vozes, 2009.
_____________. Tranqüilidade do coração.  São Paulo: Loyola, 2004.
LELOUP, Jean-Yves. Escritos sobre Hesicasmo. Uma tradição contemplativa esquecida.  Petrópolis: Vozes, 2006.
____________. Introdução aos verdadeiros filósofos. Os padres gregos: um continente esquecido
do pensamento ocidental.  Petrópolis: Vozes, 2004.
MERTON, Thomas. Homem algum é uma ilha.  Campinas, SP: Verus, 2003.
____________. O homem novo.  Petrópolis, RJ: Vozes, 2006.
____________. Na liberdade da solidão. Petrópolis, RJ: Vozes, 2002.

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terça-feira, 12 de setembro de 2017

Sobre reconciliação



“...se estiveres para trazer a tua oferta ao altar e ali te lembrares de que o teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa tua oferta ali diante do altar e vai e primeiro reconciliar-te com teu irmão; e depois virás apresentar a tua oferta”. (Mateus 5,23-24)



Salvo melhor juízo, é a única vez que Jesus manda que paremos o nosso culto: a necessidade de primeiro ir reconciliar-se com o nosso irmão. Uma das coisas que mais me marcaram negativamente nesta minha curta caminhada cristã é o fato de ver muitos amigos cristãos, pessoas que comungaram por muito tempo juntas, frequentaram as mesmas rodas de oração, e, por um ou outro motivo, acabam se desentendendo, se separando, e nunca mais voltam a se falar. Às vezes, por causa de motivos deste porte, igrejas se separam e até novas denominações são fundadas.

O fato é que cada qual acaba seguindo o seu próprio caminho, e, realizando os seus próprios “sacrifícios”, como que para apaziguar a sua própria consciência. Ocorre que obedecer é melhor do que sacrificar, conforme disse certa vez o profeta Samuel a Saul, e penso o princípio ser plenamente aplicado aqui também. E, se no momento de nosso culto, antes de comungarmos ou ofertarmos nossos sacrifícios de louvor e adoração, nos lembrarmos que o nosso irmão tem algo contra nós, deveríamos procurá-lo e tentar sanar a questão, “enquanto estamos no caminho com ele”. Tanto que, em uma antiga obra intitulada "Didaquê", não era permitido a cristãos comungarem caso estivessem brigados.

Esta frase, “enquanto estás no caminho com ele” (Mt 5,25), me faz ter uma breve meditação que pode me custar a alcunha de herege em alguns meios protestantes e ortodoxos. Será que alguém não reconciliado com seu irmão terá entrada automática no Reino de Deus? No Reino daquele que tomou a iniciativa da reconciliação conosco quando ainda estávamos em inimizade contra Ele? Daquele que manda sermos imitadores de seu Filho amado? Tenho minhas dúvidas. Não que eu ache que os tais não terão entrada no Reino; claro que terão. Entretanto, como “alguns serão salvos como que pelo fogo” será que alguns não terão que passar por um tipo de“estado intermediário de reconciliação”? Vamos imaginar a situação. Muitas pessoas quando brigam, nunca mais voltam a se falar, a se reconciliar. Aí, antes de ser permitida sua entrada na morada eterna, Deus coloca tais pessoas frente a frente em uma sala vazia, e não permitirá a sua saída de tais irmãos enquanto não se reconciliarem, pois, com tal amargura, ninguém será puro de coração o bastante para poder ver a Deus. Estar com alguém com quem se brigou e não se quer reconciliar, para alguns, seria um verdadeiro "purgatório" (risos).

Claro que isto é uma grande viagem, mas vá saber... De qualquer modo, não é o medo do juízo de Deus que nos deve levar a uma atitude conciliadora, mas sim a plenitude do relacionamento com seu Espírito, que só pode ser alcançada com um coração livre de amarguras, bem como que o estado de amizade é infinitamente melhor do que o seu contrário. É até melhor para a saúde. Quando tomamos a iniciativa da reconciliação, mesmo quando temos razão em determinada demanda, nos tornamos imitadores de Deus, que também tomou a iniciativa da reconciliação conosco, quando ainda éramos pecadores, e quando tinha toda razão do mundo para o não fazê-lo.

Mas alguém pode se perguntar: eu tomei a iniciativa, procurei o meu irmão magoado, mas tudo o que ele fez foi me desprezar mais. O que fazer? Bom, para isso, só posso imaginar uma solução. Você fez a sua parte, procurou tal pessoa, e, no que dependeu de você, procurou ter a paz com ele. Agora a questão é entre ele e Deus. Não dá para ficar se humilhando o tempo todo, pois isto também fará mal para sua auto-estima, e não será bom nem para a outra parte. Além do que, não convém ficar atirando suas pérolas de reconciliação para aqueles que somente a emporcalham. Entrega a Deus e espere no Senhor, como diz o salmista.

É muito difícil passar por esta nossa vida, e não ocorrer uma situação deste tipo. Entretanto, no que depender de nós, vamos manter uma atitude conciliadora, bem como ter paz com todos, pois isto é agradável a Deus, que todos tenhamos uma vida reconciliada, seja com Deus, com nosso próximo e com nós mesmos.

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segunda-feira, 11 de setembro de 2017

"Sou um servo inútil"


por Rev Leandro Campos*



No Evangelho de S. Lucas, captítulo 17 versículo 10 podemos ler esta instrução que Jesus deu aos seus discípulos, que nos dá a todos nós que somos atualmente os seus discípulos: "Quando tiverdes feito tudo o que vos foi ordenado, dizei: Somos servos inúteis, fizemos o que devíamos fazer".

O Itinerário espiritual cristão é marcado por uma diversidade tremenda. Há alguns anos decidi para minha experiência de formação ministerial entrar numa comunidade de características monásticas. Estou falando da Ordem de S. Bento.

Como evangélico creio num encontro pessoal com Cristo. Para mim, isso aconteceu aos 10 anos num culto da Igreja Batista na periferia da cidade de São Vicente. Apesar de ter me preparado para primeira comunhão na Igreja Católica e freqüentado a catequese, nunca havia experimentado um contato pessoal com Ele.

Vinte anos após minha decisão por Cristo depois de uma formação, eu diria, tipo colcha de retalhos - católica, batista, anglicana, metodista fui levado ao ministério ordenado para servir em nome da Igreja ao povo de Deus.

Formado Assistente Social fui/sou chamado a dar ênfase em meu ministério a dimensão da diaconia - serviço. Esse é um imperativo para vida cristã.

Compartilhando mais de 50 anos de prática ministério o Pr. Ralph M. Riggs publicou "The Spirit-Filled Pastor´s Guide" onde trata do Ministério Integral do Pastor.


Do cuidado com a saúde física, mental e espiritual. A Formação teológica e de conhecimento geral continuado. O Planejamento diário, as relações pastorais com a sociedade, a igreja e com sua própria família.


Em suma: uma vida de "oração e trabalho".

O que Bento de Núrsia e o Pr. Ralph M. Riggs tem em comum? eu diria exatamente isso: uma vida dedicada a "Oração e Trabalho" reservados as diferenças de tempo, lugar, e cultura.

A vida cristã vivida por um ministro do evangelho é dinâmica e requer dele "Sacrifício". Ele está trabalhando 25 horas por dia, 8 dias por semana. E, acredite. Ainda, é pouco.

As pessoas precisam hoje mais do que em qualquer época da história humana de cuidado pastoral. Elas precisam sentir que Deus as ama.

Aqui na All Saints´Church nossa declaração de missão é:

"Restaurar todas as pessoas para a união com Deus, e uns com os outros em Cristo, através da Oração, do Culto, dos Sacramentos, da Proclamação do Evangelho e pela Promoção da Justiça, da Paz e do Amor!"

Neste primeiro ano de ministério foram 16 casamentos, 6 batismos, 50 Santas Comunhões celebradas, 2 Ofícios fúnebres, visitas domiciliares e hospitalares, ministração da Bênção da Saúde. Pregação da Palavra de Deus...

E, recordando o texto bíblico "Quando tiverdes feito tudo o que vos foi ordenado, dizei: Somos servos inúteis, fizemos o que devíamos fazer".


Concluo: "Sou um servo inútil, fiz o que devia fazer!"

Deus quer que tenhamos como meta uma vida de santidade. Santidade que se desdobra no serviço a Palavra e a justiça. Se você desejar seguir este itinerário, saiba que há sacríficios, mas que Ele estará contigo em todos os dias da tua vida e ministério.


Oremos:

"Ó Senhor, mostra-nos a tua misericórdia. E concede-nos a tua salvação. Reveste de santidade os teus ministros. E cante o seu povo de alegria." (LOC, p. 36)




* O Rev. Leandro Campos é Presbítero da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, Paróquia de Todos os Santos. (http://www.ptodosossantos.com.br/). Este texto foi escrito em dezembro de 2007.


quinta-feira, 7 de setembro de 2017

...e o "ruah" de Deus pairava sobre a face das águas...

No princípio, Deus criou o céu e a terra. Ora, a terra estava sem forma e vazia, e as trevas cobriam o abismo, e um “ruah” de Deus pairava sobre a superfície das águas. (Gênesis 1,1-2).


As Escrituras dizem que no início a terra era sem forma e vazia, e que as trevas cobriam o abismo. Entretanto, em meio a essa "desconstrução" pairava o Espírito de Deus, que, juntamente ao Pai e o Filho, a tudo deram forma, e, onde havia aparente desordem e caos, veio a existir a vida, a ordem, o sentido.

Assim também, muitos têm a consciência de que foram criados por Deus, são “terra” de Deus, mas se encontram, em certo sentido, “sem forma” e “vazios”, vivendo dia a dia de suas vidas, de forma mecânica e nada frutífera. Se sentem como "galhos secos de uma árvore qualquer". As trevas parecem cobrir a face do abismo de suas almas, em uma vida sem muito sentido, sem muita beleza, sem muito ânimo.

Mas o fato é que, o “ruah” de Deus, o “vento”, ou o Espírito do “Senhor” se encontra sobre a face de nossas agitadas águas. E assim como este Espírito, entendemos nós, ordenou a existência de um modo tal que cada qual, ocupando o seu legítimo espaço, coopera para o bem do todo, assim também este mesmo Espírito, que paira sobre as faces de nossas agitadas almas pode ordenar as nossas vidas de um modo tal que tudo possa voltar a  fazer sentido.

Entretanto, para que tal ocorra precisamos desejar o “ruah” de Deus, o “vento” de Deus soprar sobre nós, e, impregnados deste Espírito de Cristo, sentir os leves impulsos da alma nos direcionar para onde bem entender. Ora, quem é de Cristo tem a mente de Cristo, e os filhos de Deus são guiados pelo Espírito de Deus (Paulo aos romanos). E é sentindo este leve toque do sopro divino que vamos construindo as fases de nossa existência, primeiro ordenando as águas, depois, plantando as sementes para que deem os seus devidos frutos, para que ao final, tudo seja um belo jardim.

Isto feito, assim como o anjo ficou às portas do Éden para protegê-lo, assim também nós devemos tomar conta e cultivar este nosso jardim, e protegê-los dos inimigos que tencionam quebrar toda a harmonia, afinal, como disse o sábio, devemos “guardar os nossos corações porque dele procedem as fontes para toda a vida”. Assim também, devemos proteger os nossos corações, e o não permitir que o “ruah” de Deus em nós deixe de soprar e exercer a sua influência, ou, em outra metáfora utilizada pelo bem aventurado apóstolo, não devemos deixar “apagar em nós o Espírito”.

Que o Senhor possa nos abençoar todos os dias, e que todos nós possamos aprender, a cada dia, a permitir que o “ruah” de Deus possa frutificar em nossas vidas, para que possamos dar muitos frutos para a glória de Deus Pai.

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quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Segurança e inconformismo - o paradoxo necessário

O que eu faço, não o sabes agora; compreenderás depois. (Jesus – em João 13.7).


Por Jefferson Ramalho

Amados,

A tônica da mensagem evangélica hoje tem sido o inconformismo. As pessoas são estimuladas a não aceitarem o simples fato de serem "gente", "seres humanos". E "gente" passa por problemas, dificuldades, enfermidades. Todos os seres humanos, pelo simples fato de serem o que são, estão sujeitas a toda sorte de problemas que possam existir. Com aqueles que são cristãos não é diferente.

Ninguém está isento de ser atingido por um câncer, de ficar desempregado durante meses ou mesmo anos, de passar por necessidades, de sofrer desilusões sentimentais etc. Portanto, não há diferença nesse sentido entre os que são e os que não são cristãos. A diferença, porém, é única e suficiente. O cristão autêntico tem a certeza de que o Altíssimo está no controle de todas as coisas.

Quando Jesus respondeu a Pedro: “o que eu faço, não o sabes agora; compreenderás depois”, o que Ele estava dizendo tem tudo a ver com essa convicção que o cristão deve alimentar dentro da sua alma. Não significa também que devamos ficar acomodados, de tal modo que não façamos absolutamente nada para combater as aflições da vida.

O Senhor, conquanto esteja no controle de todas as coisas, não nos desautoriza reagir contra as adversidades da vida. Devemos estar convictos de que Ele é nosso "Motor que tudo move" - para plagiar Aristóteles - mas também devemos buscar a genuína libertação de coisas que afligem nossa fragilidade humana.

A miséria, por exemplo, incompreensível e paradoxalmente não foge do controle do Senhor e ao mesmo tempo não pode ser aceita como um inimigo social que não deve ser combatido. Mas o segredo está em como deve se dar este combate à miséria, à fome, à prostituição, à aflição da alma, às enfermidades, à corrupção política, à violência urbana, à violência doméstica, ao desemprego e a tantos infindos problemas sociais.

As Escrituras, tanto no primeiro quanto no segundo Testamentos nos orientam acerca disso. O combate ao consumismo, a necessidade do desprendimento de bens fúteis, a não aceitação da exploração da fé exercida por pastores das mega-igrejas e mega-comunidades evangélicas que têm nestes últimos anos ensinado seus fiéis a cultuarem, servirem e buscarem um deus chamado Riquezas, mas que vem rotulado e disfarçado com os Nomes de Deus e de Jesus. Transformaram as Escrituras em um manual de prosperidade financeira, convertendo errada e escandalosamente determinadas passagens bíblicas que não têm nenhuma relação com o dinheiro, em um método de busca de riquezas financeiras e materiais cada vez maiores. Isso não é Evangelho. É qualquer outra coisa, menos Evangelho.

Que sejamos, com a Graça de Deus, simplesmente humanos, e que identificam o controlar de Deus em tudo, afinal Ele não deixou de ser o Senhor Soberano. Que sejamos humanos que descansam no chão da Graça do Senhor, mas que também não se conformam com as injustiças sociais, desigualdades, misérias, violências, corrupções, explorações religiosas em nome de Deus e toda sorte de “abuso cristão” que tem sido praticado no Brasil.

na Graça,

Jefferson